A HORA DO CONTO OU DA CRÔNICA

 MR. EVERYDAY


 



Existe um antigo provérbio eslavo que diz que um mau vizinho é pior que uma praga, algo que corrói exaustivamente a mente e aflige incondicionalmente o coração.


Há muitos anos atrás, um casal sulista de meia idade veio a passeio a Camocim – e encantaram-se com o lugar. Foi amor à primeira vista. Tanto que resolveram fixar definitivamente residência por aqui. Depois de algumas andanças à procura de um imóvel que lhes reservasse abrigo e conforto, escolheram uma bela casa situada candidamente em uma rua tranquila da urbe. Logo trouxeram a mudança, fizeram uns poucos amigos e começaram uma vida nova na cidade.


Nas imediações do imponente casario, morava um funcionário público aposentado, homem de nariz emproado, barriga proeminente, olhar arguto e bigode desafiador, que pensou mecanicamente com os seus botões como seria oportuno, para ele, granjear a amizade dos novos vizinhos. Daquele momento em diante tudo fez para conseguir o seu intento. Com desvelo e urdidura, traçou mentalmente como proceder um plano de abordagem que não chamasse atenção demasiada para os seus propósitos secretos. Assim, numa clara manhã de outubro, ainda com o sol despertando lentamente – e o leiteiro a entregar calmamente o seu saboroso produto, naquelas redondezas, ele resolveu que aquele era o dia tão esperado para agir. De prontidão, qual soldado na trincheira, ficou andando para lá e para cá, à frente de sua morada, observando calmamente o movimento da ruazinha pacata. Após uma espera exaustiva e angustiada, ele finalmente vê o vizinho aproximar-se lentamente, de volta do mercado, com uma cesta cheia de frutas e hortaliças. Antes mesmo que este conseguisse abrir a porta, o homem de cabelos engomados chega furtivamente e, com ares de civilidade disfarçada, oferece ajuda ao forasteiro. Este gentilmente recusa a oferta daquele, agradecendo-lhe a camaradagem. Destarte, tiram um dedo de prosa e cada um apresenta-se rapidamente. Esta foi a senha que o observador atento tanto esperava.


Na manhã seguinte, sem mais delongas, toca a campainha do neighbor e, fazendo-se de casa, com a prosaica anuência do dono, senta-se confortavelmente em uma das inúmeras cadeiras de vime, na área de estar do palacete, e começa a desfiar uma conversa que não tem fim. Vendo-se encurralado, mas querendo manter a serenidade, o anfitrião olha o relógio, pede desculpas ao homem de bigode, informando-lhe polidamente que tem um urgente trabalho a fazer e que infelizmente o tempo urge. Não muito convencido daquilo, como se estivesse farejando alguma coisa no ar, o vizinho forçosamente sai de cena, não exatamente à francesa.


Determinado a estreitar relações com a novíssima vizinhança, custasse o que custasse, a cada raiar de um novo dia o bigodudo fincava plantão na mansão, saindo de lá somente em mortas horas, para desespero inconteste de seus moradores, pois sua presença, digamos, não era tão aprazível assim. De tanta insistência, mereceu da esposa do sulista, senhora atenta aos mínimos detalhes da etiqueta e de raro bom humor, a alcunha de Mr. Everyday, apelido que fazia jus ao tamanho da chateação explícita proporcionada por aquele contumaz visitante matinal.


Entrava semana e saía semana, lá estava Mr. Everyday a debulhar incessantemente um rosário de lamentações sobre sua vida pessoal ou a infernar a vida do casal com assuntos que não lhes diziam minimamente respeito. E para piorar o que já era ruim, não arredava pé dali nem que a vaca tussisse ou resolvesse bestamente voar. Suas visitas ficaram tão constantes – e cansativas - que já causavam um profundo descontentamento nos forasteiros.


Aquilo foi tomando uma proporção tal que os sulistas pensaram em mudar-se definitivamente dali. Foram salvos pela esperteza de um velho jardineiro que percebendo a vexatória situação em que seus patrões estavam metidos, falou-lhes que, se quisessem, ele próprio, doravante, atenderia Mr. Everyday, sem dar-lhe a menor chance de entrar na residência. E assim o fez.


Depois de acertarem os ponteiros de como o serviçal agiria, no outro dia, cedinho, Mr. Everyday, com um largo sorriso no rosto, bate à porta. Ciente do que deveria fazer, o jardineiro fiel dirige-se ao portão e, sem abri-lo, informa ao abominável homem das neves que os patrões encontravam-se reclusos, ambos com enxaqueca.  Soltando uma imprecação feroz e fazendo um rápido muxoxo, o cidadão de olhar gélido dá meia volta – e volta para casa.


No decorrer dos dias seguintes, sempre que este se anunciava, o gardener dizia que os patrões estavam acometidos de alguma pequena indisposição. Aquilo foi irritando bastante o homem de nariz emproado que, a contragosto, percebeu que o melhor mesmo era esquecer, pelo menos por enquanto, seus maquiavélicos planos, e caçar outros trouxas, digo, incautos, em outra freguesia.


Thus, the inconvenient neighbor took a disappearance tea - and never more appeared at the house.


AVELAR SANTOS


A/S CAMOCIM-CE

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