A VOZ DO BRASIL
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Houve uma época, em Camocim, que o rio caudaloso do tempo crudelíssima e impiedosamente levou consigo, quando a cidade era uma linda menina de sonhos dourados, de olhar sereno, e coração puro, em que as pessoas reuniam-se animadamente nas calçadas para trocarem um dedo de prosa e verem, sem pressa, o mundo girar.
À tardinha, depois de Sua Majestade Imperial, o Trem, aparecer, resplandecente, em trajes de gala, para delírio de seus fervorosos, devotos e incontáveis súditos, magnetizando todos os olhares e pensamentos, a cidadezinha, lá pelas ave-marias, derramava-se inteira numa quietude singela, provinciana, todos recolhidos no aconchego do lar, bendizendo ao Senhor por mais um dia de infinita graça – e de inumeráveis bênçãos.
Havia paz, pelas ruas- e o silêncio reinava absoluto.
Por volta das dezenove horas, entretanto, tudo mudava. A urbe parecia acordar do seu sono letárgico, e, repentinamente, alvoroçava-se toda, recolhendo com zelo e dedicação de Mãe amorosa muitos de seus diletos filhos, no colo indizível de suas belas praças, onde os amigos confraternizavam-se, e, com uma pitada de sorte, podia colher-se inesquecíveis amores.
A Voz de Camocim e Os Sonoros Pinto Martins, rivalizando-se prosaicamente através de seus impecáveis locutores, alegravam a noite – e a nossa alma não se sentia tão monótona e vazia.
Na confluência da amada Engenheiro Privat com a Rua Dr. João Thomé, bem na esquina, ficava o Armazém do Sr. Eduardo Normandia. Era para lá que os intelectuais, burgueses de primeira hora e comerciantes abastados dirigiam-se, civicamente, todos os dias, para ouvirem, compenetrados, num asmático rádio de válvulas Philco, o noticiário incomparável da Voz do Brasil. Ao término deste, refestelados com tantas informações, a conversa rolava solta até altas horas. Aí, as ponderações de toda ordem eram postas às claras, enquanto o fio da navalha da argumentação um pouco mais ousada, ciceriana, de certos cavalheiros de cérebros avantajados e olhos indubitavelmente mais perspicazes do que seus pares, vez por outra, aprofundava-se mais do que devia - e feria, mesmo que levemente, impolutas susceptibilidades de muitos dos presentes. Nada, porém, que manchasse minimamente a honra de quem quer que fosse nem a amizade que mantinham-nos diariamente reféns uns dos outros.
No outro dia abençoado, tudo recomeçava como dantes.
Esta seleta roda de amigos - e o seu esgrimir insuperável na arte das ideias - perdurou até o final da década de setenta. Depois, a rabugenta e horripilante senhora da foice e do destino, a quem forçosamente todos tememos, começou a colher, de forma estapafúrdia e sistemática, muitos de seus nobres membros, apagando, de vez, o lume desse nosso cívico evento cotidiano. Uma pena! Mas o que fazer, se nada resiste ao dolorido - e cáustico - chamado dessa enfezada e chatíssima madame?
Os dias brandos, infelizmente, se esfumaçaram! O Trem perdeu-se, pobrezinho, nos labirintos insidiosos e escuros das bitolas podres dos anos - e nunca mais voltou para alegrar e perfumar a nossa vida! Tudo mudou!
Agora, resta-nos somente fragmentos dispersos de saudade que martelam cansativa e pesadamente o cérebro - e consomem abrasadora e vorazmente a nossa alma!
AVELAR SANTOS
A/S CAMOCIM - CE
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