Naquele tempo, 10 as multidões perguntavam a João: "Que devemos fazer?" 11 João respondia: "Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!

 


Naquele tempo, 10 as multidões perguntavam a João: "Que devemos fazer?" 11 João respondia: "Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!" 12 Foram também para o batismo cobradores de impostos, e perguntaram a João: "Mestre, que devemos fazer?" 13 João respondeu: "Não cobreis mais do que foi estabelecido". 14Havia também soldados que perguntavam: "E nós, que devemos fazer?" João respondia: "Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem façais falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário!" 15 O povo estava na expectativa e todos se perguntavam no seu íntimo se João não seria o Messias. 16 Por isso, João declarou a todos: "Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. 17 Ele virá com a pá na mão: vai limpar sua eira e recolher o trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga". 18 E ainda de muitos outros modos, João anunciava ao povo a Boa-Nova.


— Palavra da Salvação.

Reflexão

1. Lucas sabe da necessidade que atinge a população; conhece a sede de salvação do povo de Deus; preocupa-se com o bem para todos; e enxerga em João Batista aquele que de fato teve condições de falar concretamente aos anseios de todos. João Batista, segundo Lucas, é, de fato, um profeta autêntico: alguém que não teme afrontar os poderosos em favor dos mais simples; uma pessoa que não usa de palavras dúbias, não procura salvar a própria “pele”, não se importa com o que vão dizer sobre ele, não se interessa por holofotes, não se vende por valor nenhum, não se corrompe e não tem outro interesse senão o de viver e anunciar a Verdade. Por experiência, trata-se de um homem formado no deserto, nas coisas extremamente essenciais, totalmente estruturado por meio de carências, desafios, desconfortos; preparado pela agressividade do sol e do frio da noite, mas também pela beleza da luz e do firmamento; um homem que aprendeu a viver com o pouco, na simplicidade e com sabedoria. Diante de uma sociedade viciada no poder, na degradação humana de modo geral, nos mais diversos tipos de vícios e explorações, injustiças e outras misérias, João se apresentou como seta de importância sobrenatural. Esperava-se o Messias, o Salvador, Aquele que traria paz, justiça e libertação para todos, e viram em João essa realização, negada pelo próprio profeta que vai indicar o Verdadeiro Messias. 

2. O texto pode ser dividido em duas partes: a primeira referente aos grupos que se aproximam de João para receber o batismo e tirarem algumas dúvidas; e a segunda, sobre o próprio profeta. O primeiro grupo é o do povo: “As multidões perguntavam a João: Que devemos fazer?” O povo se sente diante das ameaças do juízo, tem necessidade de tudo e de preparação. O profeta não apresenta uma linguagem adocicada para falar sobre a chegada do Messias; por meio de palavras duras, revela a vinda de um tempo de alegria salvífica. A esse povo, o profeta pede apenas uma coisa: a partilha. Não faz aqui uma solicitação teologicamente profunda sobre o como se deve preparar para o grande dia do Senhor, mas tão somente que sejam irmãos de partilha, isto é, que façam o bem, pratiquem o bem, dividam com os outros daquilo que possuem, que sejam bons. Na expectativa de uma intimidade com o Senhor, é preciso se preparar como servos, pois o Senhor virá como o Servo por excelência. O objetivo aqui não é prender o povo na partilha, mas partilhar pra se viver na intimidade com o Messias.


3. O segundo grupo: Os cobradores de impostos que também se aproximaram e perguntaram: “Mestre, que devemos nós fazer?” João é preciso na sua resposta: “Não exijais nada além do que vos foi fixado”. A resposta do profeta oferece aos cobradores a possibilidade de uma experiência concreta com o Messias; eles não precisam largar a profissão que possuem, mesmo que seja mundialmente vista negativamente; eles só precisam não explorar ninguém, fazer o que é justo. Uma experiência com Deus não quer dizer não fazer nada, mas colocar em prática aquilo que está ao alcance de cada um do modo mais perfeito possível, dando ao outro a possibilidade de uma vida melhor. Mesmo com uma profissão tão desagradável, o profissional pode ser bom naquilo que faz quando o fizer justamente. Procedendo dessa forma, certamente caminha em direção à santidade. 

O terceiro grupo que se apresenta diante do profeta é o dos soldados: “E nós, que devemos fazer?” Pois bem, os soldados não ganhavam bem e, por isso, maltratavam pessoas, agrediam-nas e, em muitos casos, estupravam-nas. Certamente não se trata de todos os soldados, mas era comum acontecerem tais coisas. O fato é que Lucas coloca esse grupo diante de João Batista porque tem a pretensão de mostrar que eles podem ser diferentes, podem ser melhores, podem fazer a diferença para a construção de uma sociedade mais humana, sem violências, mais respeitada e organizada. João lhes responde: “Não façais violência, nem mal a ninguém, e contentai-vos com o vosso soldo”. Importante frisar que João não lhes pediu que abandonasse a farda e nem os impediu de usar armas, mas dirigiu-se ao ponto crucial: nada de violência, nada de danos às pessoas, nada de ambições. Todos podem ser bons naquilo que fazem se o fizerem com dignidade, respeito, dedicação e valorização do outro. A chegada do Messias exige verdadeira mudança de vida; ninguém pode alcançar uma autêntica intimidade com Jesus Cristo se não se torna um dom para todos.


 


5. “Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus”. Arrepender-se significa mudar de mentalidade, mudar de opinião, seguir outra Estrada, outro horizonte. Não é atoa que a palavra usada vem do grego METANOUS. Ora, NOUS é a parte mais elevada da mente, referente à inteligência, mais precisamente. Então, o texto não quer dizer algo simples, mas uma total transformação, consciente, firme, tendo a inteligência como assentimento total à fé, como adesão plena ao Senhor. O homem deve abandonar tudo aquilo que ele mais ama neste mundo, lançar por terra tudo aquilo que é empecilho à implantação do reino de Deus na história, tudo o que seja busca de si mesmo, para viver da vontade de Deus. O reino dos Céus é reino da Justiça, fundamentado na verdade. É necessário, portanto, largar as injustiças, mentiras, superficialidades, jogos de interesses, o poder mundano, a velha Jerusalém e seus maus costumes, se para lançar no Novo que está às portas. Trata-se de Jesus Cristo, presença do Reino de Deus na história, justiça para toda a humanidade, a paz para todos.


6. “… e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados”. O povo, de modo geral, temia a Deus, queria verdadeiramente ter um encontro de salvação, de vida nova, de libertação de todas as injustiças e explorações pelas quais passavam. Arrependidos, confessavam seus pecados, a fim de entrarem nessa realidade nova. Certamente nem o batismo nem a confissão tinham a mesma realidade sacramental justificadora, portadora da graça santificante. Antes de João, os assim chamados “monges” de Qumran já realizavam um tipo de purificação semelhante, um banho sagrado. Os pagãos eram “batizados”, para poderem entrar na realidade de fé no Deus de Israel. Quer dizer, não era um rito criado do nada por João. Se bem que, por outro lado, havia um dado original, escatológico, um preparar-se para o acontecimento último, o encontro com o juiz justo, sinalizando confissão e arrependimento dos pecados, como meios para se conquistar a vida eterna. Tanto o batismo quanto a confissão aqui eram gestos de aceitação e participação consciente na realidade proclamada pelo profeta João, o batizador. Com esses gestos, sentiam-se preparados para transitarem por esta Nova Estrada até atingirem a graça de um autêntico encontro com o Senhor.


7. Por outro lado, João fez uma dura crítica às lideranças de Israel: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está pra vir?”, Isto é, falsos guias, destronadores de Deus e ladrões do Seu poder, sepulcros caiados, amantes da mentira, filhos de satanás, o pai da mentira, nas palavras do próprio Jesus. Usam o fato de pertencerem à descendência de Abrão para explorar os mais fracos. Indo mais além e dando um golpe terrível, João conclui: “Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão”. Ninguém vai salvar-se por pertencer a um povo, mas por suas escolhas e ações.  Consequentemente, quem não fizer a vontade de Deus (árvore que não produzir frutos), terá o destino da destruição pelo fogo. A hora para esse acontecimento era aquele presente, o último momento, pois o juízo de Deus já estava prestes a acontecer: “O machado já está preparado para cortar as árvores pela raiz”. É necessário, portanto, arrepender-se, preparando para o mais perfeito encontro com Aquele que vem, Ele é o Senhor, e vem com a força do Espírito Santo, o Fogo destruidor de todos os males. Ele dará o batismo na potência do Seu Espírito.mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu não sou digno nem de desatar-lhe as correias de Suas sandálias”. Essa afirmação tem, além da expressiva manifestação da humildade do profeta, uma lição tremendamente importante sobre a importância de Jesus Cristo para a Igreja, que por seu lado, procura, no seu início, mostrar para os “joanitas”, seguidores de João Batista, que o Messias não tinha sido o seu mestre, mas Aquele que por ele foi apresentado com a Potência de Deus, o Espírito Santo. João Batista foi legítimo instrumento, voz da Palavra eterna, amante da Verdade (Cristo), fogo abrasador do anúncio da alegria de Deus para a humanidade. Assim como João, seus discípulos e todos os convertidos devem voltar-se decididamente para o Salvador, que não propõe uma alegria de festejos humanos, mas alegria salvífica.

9. “Ele virá com a pá na mão: vai limpar sua eira e recolher o trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”. O trigo e a palha serão sacudidos a fim de que o vento os separe e permaneça só o trigo. A “eira” é sua Igreja; a palha, os que de fé rasteira, indiferentes e amigos de si mesmos; o trigo, aqueles que escolheram seguir Jesus Cristo e viver do jeito dele; o vento é o Espírito de Deus que arrancará do meio do rebanho ou de dentro de cada discípulo o que é contrário a Deus, purificando suas almas. Aqueles que se fecharem em si mesmos serão lançados na geena. O “vento” de Deus conduzirá à verdadeira transformação interior, a mais profunda mudança de vida, a mais elevada mudança de mentalidade, tornando-nos capazes de Deus.

Quais são os seus dons? Se tem algum, coloca-o à disposição do bem? Tem preocupação com a salvação das pessoas? Tem medo de anunciar a Verdade? Por que ainda não se tornou instrumento da missão evangelizadora? Procura ajudar os necessitados e inocentes, indefesos e injustiçados? Como está seu grau de intimidade com o Messias Jesus Cristo? Tem medo dos poderosos? Tem abertura ao Espírito Santo? Ainda se vê como palha destinada ao fogo? Percebe-se como trigo de Deus?

Um forte e carinhoso abraço.



 


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